Há quase dois anos decidi assumir os meus cabelos brancos. Cansei de me olhar no espelho e me deparar com uma mulher perto dos cinquenta anos querendo uma aparência de... trinta e cinco.
Foi um decisão bem difícil, mas me tomei de coragem e disse: "Chega! Não quero mais isso!"
Essa ditadura da beleza que leva as mulheres - os homens em menor escala - a fazerem cirurgias plásticas, lipoaspiração e todo tipo de tratamento para aparentar anos a menos do que se tem, eu decididamente, não quero pra mim.
Essa semana lendo a matéria "A idade da convicção" na revista Carta capital (www.cartacapital.com.br) pensei em tudo isso.
Na revista, de forma bem-humorada, Isabella Rosselini fala sobre a sua trajetória de vida e nos presenteia com uma reflexão acerca da maturidade. Além de presidente do júri da mostra competitiva do festival de Berlim Isabella é também a protagonista do filme "Late Bloomers", onde ela faz o papel de Mary, uma mulher que começa a sentir os sinais da velhice e tenta se adaptar à nova condição procurando se cuidar e estabelecer uma meta social. Na foto abaixo, cena do filme "Late Bloomers" da diretora Julie Gavras, Isabella Rosselinni com com William Hurt (ultimosegundo.ig.com.br) Como muitas de nós, a atriz, diretora e ex-modelo da Lancôme que está perto de completar 59 anos, está envelhecendo e resolveu assumir tranquilamente as suas rugas. Ela diz: "Não quero ser jovem , ou ser considerada como tal. Quero sempre ser sofisticada, isso sim, aparentar a idade que tenho e não ouvir que pareço mais jovem do que sou."
Isso me emocionou muito. Tenho lido algumas entrevistas, matérias e notas sobre o filme "Late Bloomers" que aguardo ansiosamente para assistir. É uma comédia dramática que fala sobre a velhice. Aqui no blog tenho procurado fazer uma discussão também sobre o envelhecimento, pois o climatério e a menopausa é um indício de aproximação da maturidade. E para nós mulheres, é ainda mais difícil lidar com a velhice. Vivemos em um cultura que ainda descarta o que é velho, que valoriza a aparência e, portanto, alia a beleza à juventude. Envelhecer é sair do foco.
Por isso, quero dialogar sobre os mitos do climatério e da menopausa.
A vida sexual da mulher madura ou da mulher velha é ainda tratada de forma muito preconceituosa. Dependendo da idade é quase obsceno falar em desejo, gozo e prazer.
Na foto ao lado, Meryl Streep em cena do filme "O Diabo Veste Prada"
Mas, o que sabemos é que na verdade a vida sexual, o desejo por sexo, pelo prazer não tem idade para acabar.
Como no conto "Ruído de Passos" (A Via Crucis do Corpo, Clarice Lispector):
Tinha oitenta e um anos de idade. Chamava-se dona Cândida Raposo.
Essa senhora tinha a vertigem de viver. A vertigem se acentuava quando ia passar dias numa fazenda: a altitude, o verde das árvores, a chuva, tudo isso a piorava. Quando ouvia Liszt se arrepiava toda. Fora linda na juventude. Tinha vertigem quando cheirava profundamente uma rosa.
Pois foi com dona Cândida Raposo que o desejo do prazer não passava.
Teve, enfim, a grande coragem de ir a um ginecologista. E perguntou-lhe envergonhada, de cabeça baixa:
-Quando é que passa?
-Passa o quê, minha senhora?
-A coisa.
-Que coisa?
-A coisa, repetiu. O desejo de prazer, disse enfim.
-Minha senhora, lamento lhe dizer que não passa nunca.
Olhou-a espantada.
-Mas eu tenho oitenta e um anos de idade!
-Não importa, minha senhora. É até morrer.
-Mas isso é o inferno!
-É a vida, senhora Raposo.
A vida era isso, então? essa falta de vergonha?
-E o que é que eu faço? ninguém me quer mais...
O médico olhou-a com piedade.
-Não há remédio, minha senhora.
-E se eu pagasse?
-Não ia adiantar de nada. A senhora tem de se lembrar que tem oitenta e um anos de idade.
-E... e se eu me arranjasse sozinha? O senhor entende o que eu quero dizer?
-É, disse o médico. Pode ser um remédio.
Então saiu do consultório. A filha esperava-a embaixo, de carro. Um filho Cândida Raposo perdera na guerra, era um pracinha. Tinha essa intolerável dor no coração: a de sobreviver a um ser amado.
Nessa mesma noite deu um jeito e solitária satisfez-se. Mudos fogos de artifícios. Depois chorou. Tinha vergonha. Daí em diante usaria o mesmo processo. Sempre triste. É a vida, senhora Raposo, é a vida. Até a bênção da morte.
A morte.
Pareceu-lhe ouvir ruído de passos. Os passos de seu marido Antenor Raposo.

