quinta-feira, 7 de julho de 2011

Elza, a fênix.

Foto: Google

Sempre tive uma admiração enorme por Elza Soares. Sua força, coragem e, sobretudo, sua capacidade de ressurgir das cinzas, tal como a fênix, aquele pássaro da mitologia grega que quando morria entrava em auto-combustão e passado algum tempo renascia das próprias cinzas.
Agora mais uma vez Elza dá a volta por cima e quase um mês depois de ser operada da coluna, comparece ao show de abertura da 9ª Flip (Festa Literária de Paraty). 
Segundo a reportagem da folha, para conseguir chegar ao palco, foi carregada por dois homens. A matéria intitulada "Elza assume a fraqueza do corpo e a força da voz", registra que mesmo sentada, Elza não deixou de arrancar aplausos entusiasmados da plateia pela simpatia e pela força da voz.
Justiça seja feita. Elza sempre impressionou, seja pela força da sua voz ou pela mulher que ela é: ousada, corajosa e valente. Sempre foi assim. E Elza tem uma história de muito sofrimento também. Casou-se e teve seu primeiro filho aos 12 anos e aos 18 já estava viúva. Fico imaginando como deve ter sido difícil para ela ainda uma menina - pobre, filha de lavadeira e operário - casar-se tão criança. Anos depois, enfrentou a hostilidade da  "família" brasileira quando em 1962 se apaixonou por Mané Garrincha que era casado com Nair com quem já tinha sete filhas, além de um casal de filhos com Iraci e um filho sueco, concebido em 1959. Contra tudo e todos, Elza assumiu o seu romance com Garrincha com quem viveu durante 15 anos e com quem teve um filho que faleceu em 1986, vítima de um acidente de carro quando ia visitar o pai, em Pau-Grande.

Foto: http://extra.globo.com/
A vida de Elza foi sempre marcada por tragédias e sofrimentos. E ela sempre, dando a volta por cima.Na reportagem da revista Veja (agosto de 2002), mais uma vez Elza levanta e sacode a poeira:"Até conquistar a fama, enfrentou preconceitos de toda ordem. A voz rasgante passou por momentos de glória e ostracismo. Seu romance com o jogador Garrincha foi turbulento. Durante anos, Elza pagou o pato pelo fato de o craque ter sucumbido ao álcool. "Poderia processar o Brasil", diz. Não parou de trabalhar, mas ficou distante do sucesso. A situação mudou. Em 2000, recebeu o título de cantora do milênio, dado pela BBC de Londres. Depois, estourou na trilha da novela Desejos de Mulher, cantando, em dueto com Chico Buarque, uma versão de Let's Do It, de Cole Porter. Agora, brilha solo com o CD Do Cóccix até o Pescoço. Amparado por canções inéditas de Chico Buarque, Caetano Veloso e Jorge Ben Jor, o disco foi consagrado pela crítica e bem recebido pelo público."



Elza Soares sempre apoiou a diversidade sexual e o movimento o movimento Lgbt. Já foi coroada  madrinha da comunidade Lgbt e participou recentemente da campanha: "Sim, eu aceito", em apoio à livre expressão do amor e o direito universal ao casamento.                                        

                        

Já assisti vários shows de Elza Soares e continuo sua fã incondicional. Desejo que ela se recupere o mais breve possível e que volte aos palcos em grande estilo. Cantando e dançando com toda a sua irreverência. Elza Soares é um dos maiores ícones da Música Popular Brasileira.  
                                       
Uma das músicas que Elza cantou na 9ª Flip foi Flores Horizontais, de Wisnik, baseada em poema de Oswald de Andrade, escritor homenageado pela Feira este ano. Eis a letra:
Flores Horizontais,
flores da vida
flores brancas de papel,
da vida rubra de bordel,
flores da vida
afogadas nas janelas do luar
carbonizadas de remédios, tapas, pontapés,
escuras flores puras, putas, suicidas, sentimentais.
Flores horizontais.
Que rezais?
Ouça a música Flores horizontais

Mais sobre Elza:

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Respeito os meus cabelos brancos.

Suely Oliveira (Foto: Henrique Lima)
Ainda não cheguei aos sessenta anos, mas estou me preparando para isso. E quero que seja da melhor forma possível. Quando envelhecemos não tem como conter o aparecimento de rugas, a menos que façamos uso dos inúmeros artifícios como cremes, laser, botox, preenchimentos ou cirurgias plásticas. Não é o meu caso. E pelo visto, também não é o da americana Cindy Joseph que virou modelo aos 49 anos, quando foi abordada na rua por um fotógrafo que a convidou para estrelar um anúncio da Dolce & Gabbana.
Ela diz algo bem interessante para explicar porque está sendo contratada:
"(Os anunciantes) não estão me contratando por preocupação em fazer uma declaração sociológica, e sim porque querem vender, e (a minha geração) ainda está comprando".
E isso se aplica inclusive ao Brasil, já que já somos um país de longevos.

Mas na prática ainda temos um longo caminho a galgar, já que a busca da "eterna juventude" ainda é muito forte em nossa cultura. Não é à toa que esse país é vice-campeão mundial em cirurgias plásticas. E isso é muito complicado porque pessoas de 50 anos ou mais não conseguem ter a face (e a expressão!) de 25 anos. E aí, o excesso de  lifting - que "levanta" o rosto ao puxar a pele, corta o excesso e recostura em pontos escondidos, geralmente atrás da orelha - cria aquela face-padrão, deixando muitas vezes as pessoas parecidas e com cara de bonecos de cera. Além disso, o uso contínuo do botox paralisa alguns músculos da face responsáveis por expressões como raiva, espanto e tristeza. Complicado.
Cindy Joseph (Fonte: uol)
Esse papo de cabelos brancos de vez em quando volta aqui no blog. O preconceito ainda é muito grande e a insegurança que toma conta das mulheres que decidem parar de pintar os cabelos para esconder os brancos é enorme.
O mito de que cabelo branco envelhece e de que devemos viver uma eterna juventude parece que estão sempre associados. Muitas mulheres acreditam que deixar os cabelos ficarem brancos tem a ver com relaxamento, baixa auto-estima e até decadência. Mas não tem nada a ver. Podemos ficar lindas, elegantes e até mesmo modernas com os nossos cabelos brancos.
Já comentei em outro post desse mesmo blog, o quanto as minhas amigas - pelo menos algumas delas - ficaram espantadas ao se depararem com os meus cabelos brancos. A renúncia às tintas comigo foi acontecendo aos poucos e eu fui gostando do que via. Aliviada e livre. Pintei os cabelos de muitas cores. Usei henna. Fiz balayage. Luzes. Diversos matizes de louro: louro-cinza, louro-louríssimo, louro-escuro... E já nem sabia qual era a verdadeira cor dos meus cabelos.

Por usar há muitos anos os cabelos claros, foi difícil notar a mudança. Mas eu estava disposta a mudar. E assim o fiz. Continuo cuidando de mim, da minha aparência, dos meus cabelos - agora totalmente brancos. E uso shampoo e condicionador para cabelos grisalhos, o que aos poucos vai retirando aquela cor amarelada dos cabelos brancos.
Às vezes acho graça do espanto de algumas pessoas que estão sem me ver há algum tempo e me reencontram no shopping, na fila do cinema ou até mesmo no supermercado.
É muito bom sair do script, quebrar padrões que estão de maneira tão forte arraigados em nossa cultura. Mulher não pode dizer a idade? Deve parecer mais jovem do que realmente é? Essa cobrança social de rejuvenescimento, de uma aparência eterna de juventude  eu não quero pra mim.
Quem quiser que o faça, se assim se sentir bem. Mas o que eu tenho visto são depoimentos sofridos e dolorosos de mulheres que exigem de si mesmas uma aparência que já não combina com a própria idade.
Mas não nos enganemos. Esse padrão da juventude eterna também chega ao universo masculino e aquela cor acaju também cobre as madeixas de muitos homens.
Bobagem. Envelhecer é um processo natural da vida e faz parte. Eu estou comprovando isso.

Saiba mais:
Bem-estar: atenção com os cabelos brancos
Alisar ou não alisar  

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Chico, um gatão na Terceira Idade.

Foto: Google
E o Chico Buarque fez aniversário e continua lindo em seus plenos 67 anos de idade. Está na Terceira Idade. Pois é. Os mitos também envelhecem, embora Chico continue um gato e muito charmoso. (foto:google)

As Nações Unidas usam o padrão de idade de 60 anos para descrever as pessoas mais velhas.  E o Estatuto do Idoso foi criado para regulamentar os direitos das pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. Portanto, Chico é uma pessoa idosa. 

Mas é claro que o processo de envelhecimento não começa na Terceira Idade e o que acontece com as pessoas ao longo dos anos varia bastante. As primeiras rugas de expressão. Cabelos embranquecendo. O fato é que a lei da gravidade não perdoa ninguém.
E uma coisa é certa: todos nós vamos envelhecendo desde que nascemos! A não ser... Benjamin Button!

Pois é. Lembrei agora do filme O curioso caso de Benjamin Button, direção David Fincher (2009). 
A história se passa em Nova Orleans em 1918. 
Benjamin Button (Brad Pitt) nasceu de uma forma rara, com uma aparência enrugada, como se fosse um velhinho de oitenta anos e com doenças de uma pessoa idosa. E com o passar do tempo ele rejuvenesce, invertendo o ciclo natural da vida. Ainda criança ele conhece Daisy (Cate Blanchet) que tem a mesma idade que ele, por quem se apaixona. 
O filme é uma fábula baseada no conto de F. Scott Fitzgerald (1896-1940), escrito em 1922.  É lindo e comovente.  Uma história de amor que começa na infância e segue com cumplicidade e companheirismo.
Vale muito a pena assistir. Até fiquei com vontade de rever esse belíssimo filme. É um show de interpretação de Brad Pitt e de Cate Blanchet.

Mas o post de hoje era pra ser sobre Andropausa... A partir dos 45 anos, pelo menos um em cada 10 homens começa a sentir os efeitos da Andropausa masculina. Tem até aqueles calores, mas é mais difícil ser diagnosticada. É a tal da menopausa masculina. Outros dados mostram que todos os homens, a partir dos 40 anos, sofrem uma redução gradativa de 1% ao ano na produção de testosterona, o hormônio sexual masculino. A gente já conversou aqui que a testosterona é produzida nos testículos e é responsável pelas características que identificam o homem, como a voz, a barba, pelos, musculatura e pomo de adão. Pois. Na andropausa há uma redução drástica na produção desse hormônio, o que acontece por volta dos 50 anos. 
E os efeitos podem ser devastadores, sendo os mais comuns: a disfunção erétil e a diminuição do desejo sexual (sim! eles também passam por isso), falta de atenção e concentração, perda da memória, desânimo, insônia, irritabilidade, mau humor e até  depressão em alguns casos.

Mas até nisso os homens saem em vantagem. É que ao contrário do que acontece com a menopausa que afeta todas as mulheres, já que todas passaremos pela falência dos ovários (achei essa denominação horrível e já me vi de luto quando os meus pararem de funcionar) e o fim do ciclo reprodutivo, apenas 20% dos homens enfrentarão a andropausa. 
Os demais continuarão reproduzindo espermatozoides até o final da vida.
Para escrever esse post fui em busca de informações e, acredite,  os dados sobre a idade em que começa a andropausa variam, mas os sintomas coincidem.  
Dá pra ver também que há um desconhecimento enorme sobre a andropausa e ainda muito preconceito e tabu envolvendo o tema.  Nesse ponto, há um coincidência já que existe também muito preconceito em relação à menopausa. Voltaremos a falar sobre a andropausa. 

Saiba mais:
Como o corpo envelhece
Bolsa de Mulher
Homens grisalhos (foto: George Clooney)
O curioso caso de Benjamin Button

domingo, 12 de junho de 2011

Meus cabelos estão ficando brancos.

É inevitável. O tempo passa. E "com um pouco de sorte, todas nós envelheceremos", como na reportagem Velha é você!
“Jovens, envelheçam.” A ordem é de Nelson Rodrigues, dada em entrevista ao amigo Otto Lara Resende. O recado era para a juventude transgressora dos anos 70. Hoje, soa quase como heresia. Vivemos, talvez mais do que nunca, um modelo social em que a juventude é algo a se agarrar, e a velhice, um mal a se combater. Mas a pergunta que sobra aqui talvez seja: o que, afinal de contas, é ser velho? Com todo o aparato que temos por aí, de quantidade e facilidade de informação a progressos cosméticos, tem gente batendo um bolão em todas as idades e fases da vida. Gente recomeçando aos 50, quebrando recordes aos 60, produzindo freneticamente aos 90 e escrevendo livros aos 20. Por que temos tanto repúdio à natureza: nascer, envelhecer, morrer? Por que queremos ser eternamente jovens? Medo da morte apenas? Vaidade descontrolada? O que, afinal, a velhice tem de tão feio?

Tenho pensado muito na velhice não como algo distante de mim, que um dia chegará. 
Mas como algo que já está em mim. Na aparência física, com os meus cabelos brancos, com os sinais do meu corpo e do meu rosto que me fazem perceber a velhinha que aos poucos vai se instalando em mim. Em parte isso não me incomoda. São sinais do tempo, marcas de uma história de vida. As rugas revelam que o tempo passou. 

Quanto aos cabelos brancos, ultimamente tenho me surpreendido com notícias sobre mulheres que resolveram parar de pintar as madeixas. 
Como na matéria Elas não passam em branco, que mostra a atriz Cássia Kiss, a escritora Anne Kreamer e a francesa Christine Legarde, ministra da economia.  
Anne Kreamer que escreveu o livro Meus cabelos estão ficando brancos, relata a crise de se olhar no espelho aos 49 anos e insistir na aparência de uma mulher de 34 anos. Ela começou a não se reconhecer ali, naquele lugar. Entendo perfeitamente. 
E assumo com tranquilidade os meus cabelos brancos. 

domingo, 29 de maio de 2011

A Bela da tarde: "Sou uma mulher, não sou o mito".

Quando assisti o filme A Bela da Tarde (Belle de Jour) fiquei muito impressionada. O filme de Buñuel é de 1967, mas só fui vê-lo em meados dos anos oitenta. 
A história é sobre Sèverine (Catherine Deneuve) que é uma mulher belíssima, casada com um cirurgião de sucesso, mas profundamente infeliz em sua relação. Então, ela usa suas tardes de tristeza e solidão, para ir em busca de satisfação sexual. Com o tempo, Catèrine se acostuma àquela vida dupla até o dia em que aparece Marcel (Pierre Clement), um homem estranho e violento que se apaixona por ela e complica a sua vida.      (Foto: Google) 
A história é instigante, com cenas fortes - inclusive de estupro - mas é interessante pensar que fantasias e prazer sexual são fundamentais na vida daquela mulher que queria mais do que a aparência de um lar feliz. Belle de Jour é um lírio que floresce apenas durante o dia. Belle de Jour

Agora a Bela da Tarde vem ao Brasil para o Festival Varilux do cinema francês. Catherine Deneuve tem uma longa trajetória cinematográfica, com filmes de sucesso de diretores famosos e polêmicos como Buñuel, Polanski e Truffaut.
Impressiona também que apesar de toda sua história a imprensa destaque suas atuais formas e rugas - inevitáveis aos 68 anos.
Abaixo a entrevista no jornal O Estado de São Paulo

''Sou uma mulher, não sou o mito''

29 de maio de 2011 | 0h 00
Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo
Entrevista - Catherine Deneuve, atriz francesa
François Mori/AP
François Mori/AP
La Deneuve. "Eu me renovo como posso", diz a atriz que vem ao Brasil para o Festival Varilux

Passaram-se os anos - as décadas -, mas o tempo continua respeitando a bela da tarde. Catherine Deneuve é uma senhora, mas prescinde das plásticas e do botox para continuar impressionando. Se recorreu ao bisturi, foi com muita parcimônia. A silhueta é que está mais pesada. Ela não é mais a loira delgada que cantava e dançava com a irmã, Françoise Dorléac, em Duas Garotas Românticas (Les Demoiselles de Rochefort), de Jacques Demy. Mas canta no novo Christophe Honoré, Les Bien-Aimés, Os Bem-Amados, que encerrou o Festival de Cannes, no domingo passado.
No início da tarde daquele dia, Catherine recebeu um reduzido grupo de jornalistas - quatro, incluindo o repórter do Estado, mas um ficou mudo, decerto pelo choque provocado por estar diante do mito - para falar do filme e de sua extraordinária carreira. Ela fumou muito, mas sempre com o cuidado de não despejar a fumaça na cara dos interlocutores (não havia nenhuma mulher). Catherine prepara-se para viajar para o Brasil. Estará aqui nos próximos dias, como convidada especial do Festival Varilux do Cinema Francês que também vai homenagear, com uma retrospectiva, outra estrela, Sandrine Bonnaire.
Como curiosidade, vale destacar o que disse depois, em outra entrevista, Honoré: Catherine pode representar a França, como Dostoievski representa a Rússia e Oscar Niemeyer, o Brasil. Mas, para ele, Catherine não é nem o mito nem o ícone - é a mãe de sua amiga Chiara (Mastroianni, filha da belle toujours com outro gênio da representação, Marcello Mastroianni).
Como é voltar a cantar diante das câmeras?
Não sou do tipo que tenta construir uma carreira de cantora, mas quando as circunstâncias se apresentam e o papel exige, canto com o maior prazer. Christophe (Honoré) diz que sou muito afinada, mas o curioso é que Les Bien-Aimés não nasceu com a proposta de ser um musical. Ele encomendou uma música para o compositor Alex Beaupain, com quem havia trabalhado em Canções de Amor. Uma canção puxou a outra e, de repente, o filme virou musical, com 12 canções e 40 minutos de diálogo cantado.
É impossível não se lembrar de Jacques Demy. Que lembranças guarda de Os Guarda-Chuvas do Amor e de Duas Garotas Românticas?
Mas o importante não é a minha lembrança e sim, a sua. Para milhões de espectadores ao redor do mundo, esses filmes viraram obras encantadas. A reputação de Jacques é daquelas que não cessa de crescer. Filmes que, na época, foram mal recebidos hoje viraram referência. Ele amava as comédias musicais. O melhor é que, sob uma aparência de refinamento e frivolidade, ele conseguiu criar todo um universo crítico. Esse era o seu gênio.
São filmes dos anos 1960, quando você fez filmes transgressores, trabalhando com grandes diretores - Demy, Polanski, Truffaut, Buñuel, principalmente. O que a impulsionava a transgredir?
Mas era normal! Surgi com a nouvelle vague. Éramos todos jovens e aqueles diretores, que queriam ser autores, iam contra as regras estabelecidas. Tive a sorte de trabalhar com alguns, em filmes bem-sucedidos. Digamos que, naquela época, eu fui escolhida, mas, depois, quando pude escolher, segui com Don Luis (Buñuel) e agreguei (Marco) Ferreri, (Jean-Paul) Rappeneau, André (Téchiné). Minha carreira foi construída de encontros, não como uma estratégia, mas momentos de felicidade. Tenho muito orgulho do que fiz e continuo fazendo.
Justamente, a felicidade. Existe uma frase em Les Bien-Aimés, "Não existem casamentos felizes." O que você pensa disso?
Que não vou lhe falar dos meus casamentos (risos). Mas acho uma bobagem buscar a felicidade como um estado permanente. Seria um tédio terrível. Nós precisamos desses instantes de euforia, de plenitude, justamente para equilibrar os outros. A vida é injusta, cruel. Não se pode passar por ela sem perdas. O importante é o equilíbrio.
Gostei muito de outra frase. "Você pode acabar comigo, mas não me impedir de seguir te amando..."
(Ela cantarola para recuperar na lembrança a frase completa da canção) É uma concepção romântica, sem dúvida, mas que faz parte do conceito do filme. François (Truffaut) desconfiava do romantismo. Fez grandes filmes sobre pessoas que amam, a despeito da rejeição. O amor é sempre exigente, pode nos pregar peças. O importante é não se fechar para as emoções da vida.
Para ser a mulher que você se tornou, teve algum modelo?
Sou produto de uma era de mudanças, para a qual contribuí, mas se alguma vez tive uma modelo foi Louise Brooks a estrela de (G. W.) Pabst. Aquela foi uma mulher adiante de sua época.
Você se tornou uma espécie de madrinha do novo cinema francês, trabalhando com Honoré, François Ozon (Potiche) e outros jovens realizadores. Não é intimidante trabalhar com um mito?
Você teria de perguntar a eles, mas não sou um mito, sou uma mulher. No set, sou uma atriz como as outras e, às vezes, sou até a mais preocupada. Em Les Bien-Aimés represento com minha filha, Chiara. Fazemos mãe e filha. Eu tinha de cuidar para que os gestos e olhares, as palavras fossem da personagem, não meus. Mas é natural que eu trabalhe com jovens. O cinema renova-se, os autores da minha geração estão parando ou desaparecendo. Eles se renovam, eu me renovo como posso. Depois das mães, começo a fazer as avós. O importante é seguir com o prazer que o cinema me dá.
Você trabalhou com Milos Forman em Les Bien-Aimés. Como foi?
Já o conhecia. Ele é encantador, além de grande artista. E é um gourmet. Christophe (Honoré) me disse que nem precisou fazer força para contratá-lo. Bastou dizer que Milos teria todos os restaurantes de Paris à sua disposição e ainda estaria casado comigo. Milos foi galante - disse que, se era a única forma de se casar comigo, ele aceitava, com certeza (risos).
Você está indo ao Brasil para participar de um festival do cinema francês no Rio e em São Paulo. Será sua primeira vez?
Não, já estive algumas vezes, mas não o suficiente para ter uma ideia do País. O Rio é um dos lugares mais belos do mundo. Ouço que o Brasil mudou, evoluiu muito. Vocês têm uma presidente. O problema é que essas estadas são curtas. Quase não temos tempo de ver nem conhecer nada. Vou tentar fugir um pouco ao circuito fechado dos compromissos.
Para concluir, você trabalha com sua filha em Les Bien-Aimés. Chiara se tornou uma verdadeira atriz. E está linda...
É gentil de sua parte me dizer isso. Mas concordo. Estou muito orgulhosa do que Chiara conseguiu, na vida e na carreira. 


Uma vida dedicada à ciência

Hoje lendo essa matéria do Estado de São Paulo fiquei pensando sobre a beleza e a riqueza de uma vida inteira dedicada à academia, à ciência. Realmente admirável. E chama a atenção o fato de ser uma mulher. Isto porque pensando a forma como as relações de gênero e como os papeis sociais são determinados e perpetuados, é difícil imaginar como conciliar as exigências de uma trajetória profissional de sucesso e a vida pessoal. 
Para nós mulheres, sempre - ou na maioria das vezes - é bem mais complicado.
Lembrei de uma professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro que no Encontro Mulher e Ciência, em Brasília (2006) revelou em sua fala pública como é difícil ser uma cientista - bem sucedida - considerando as exigências da profissão, como por exemplo, a dedicação exclusiva. Deu o próprio exemplo, contando que antes de ir àquele encontro precisou fazer supermercado para abastecer a casa.
Aí pergunto: quantas de nós para ir ao trabalho, fazer viagens, participar de reuniões e mesmo exercer a nossa militância feminista, política ou social precisa buscar ajuda e em geral, a ajuda de uma outra mulher, seja a empregada doméstica, a mãe, a sogra? Quantas vezes precisamos ir ao supermercado, à feira, antes de fazer uma viagem de trabalho? 

Compartilho, além dessas reflexões, a matéria do Estado de São Paulo.


A bióloga que leciona na USP há 70 anos

Aos 93, Berta de Morretes mantém rotina de aulas, critica burocracia e vê professores 'acomodados'

29 de maio de 2011 | 0h 00
Mariana Mandelli - O Estado de S.Paulo
De dentro dos prédios da Universidade de São Paulo (USP), a professora Berta Lange de Morretes viu Adolf Hitler provocar a Segunda Guerra Mundial; o mundo se dividir em blocos econômicos durante a Guerra Fria; o Brasil passar por uma ditadura militar de mais de 20 anos; as mulheres conquistarem direitos; e os Estados Unidos ganharem seu primeiro presidente negro. Aos 93 anos, ela está completando 70 como docente na mais prestigiada instituição de ensino superior do País.
Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE
Exemplo. Berta, na sala que ocupa há 50 anos na USP: aulas na graduação e pós-graduação
Na USP, o professor se aposenta aos 70 anos. Mas, caso queira, pode continuar - só que de forma voluntária. Ou seja: ele não recebe nada por isso. Especializada na área de botânica, mais especificamente em anatomia vegetal, Berta ainda leciona: dá aulas em uma turma de graduação e duas de pós-graduação - e também desenvolve pesquisas. E não pensa em parar. "Estou estudando o efeito de radiações ionizantes sobre a estrutura dos órgãos das plantas", conta.
Berta ingressou na USP em 1938, na primeira turma do curso de História Natural (hoje, Ciências Biológicas). Formou-se em 1941 e nunca mais abandonou o Instituto de Biociências (IB) da universidade. Mesmo caminhando com dificuldade - sofreu um acidente há 15 anos, quando um ônibus do qual descia acelerou -, ela faz quatro excursões por ano com os alunos. "Eles vão à mata, colhem as plantas e trazem para mim. Explico dentro do carro", conta com a voz mansa, com um pouco de sotaque.
Nascida em 28 de junho de 1917, na cidade de Iffeldorf, na região dos lagos da Alemanha, Berta veio para o Brasil, mais precisamente para Curitiba (PR), aos 2 anos. Foi criada em uma casa onde o respeito às artes, à natureza e às pessoas era primordial. Seu pai, brasileiro, foi à Europa estudar zoologia e artes. A mãe deu aulas de canto para Jair Rodrigues e de empostação de voz para a atriz Irene Ravache.
O interesse por plantas e animais veio dos passeios que fazia com a família. "Criança, sempre que vê bicho, quer pisar, mas meu pai dizia: "Não pode, ele sente dor como você"", lembra. "Se a gente não obedecesse, ele nos dava um puxão para mostrar que doía mesmo."
A família veio para São Paulo entre 1934 e 1935 - ela não lembra ao certo -, quando seu pai foi convidado para ser um dos pesquisadores do Museu Paulista da área de zoologia. Foram tempos difíceis para o casal e os quatro filhos, que sobreviviam com o equivalente a R$ 600.
Mesmo com as dificuldades, ela e a irmã, Ruth, hoje com 91 anos, queriam estudar. "Quando contamos ao meu pai que queríamos entrar nesse curso novo, meus tios disseram que ele era louco de deixar", recorda-se. As duas passaram no vestibular - composto por provas oral, escrita e prática - com mais oito alunos: cinco homens e cinco mulheres. Ela se lembra do nome completo de todos.
As aulas eram em francês, italiano e inglês - a USP ainda estava se formando e, na falta de professores, os docentes vieram da Europa. "Na aula de um dos professores, um italiano, se errássemos, éramos chamados de "ignoranti" e "stupidi"", lembra, rindo.
Berta se lembra das dificuldades do início da instituição. "Quando mudamos para o Palacete Jorge Street, no centro, o departamento de botânica funcionava em cima de uma piscina", conta. "Colocamos um tablado nela e dividimos o espaço entre a sala dos professores e as salas prática e teórica. E estudávamos ali."
Esforço. Na Cidade Universitária, onde ocupa a mesma sala há mais de 50 anos, ela ajudou a construir uma estufa mergulhada para abrigar musgos e samambaias. "Tenho muitas recordações desse tempo em que a gente se esforçava para melhorar as condições para os estudantes. Não vejo isso hoje. Os professores novos estão mal acostumados, só fazem se há verba."
Ela também critica a burocracia que existe na universidade. "Como naquela época tudo era necessário, era fácil de fazer", lembra. "Hoje, se peço uma coisa para comprar, tem de fazer documento, orçamento, ver se vale a pena, atender comissões."
No IB, Berta também é conhecida por pagar mensalidades de faculdades e cursos para funcionários terceirizados do prédio - nos últimos dez anos, formou nove pessoas, entre advogados, professores e enfermeiras, e agora custeia os estudos de mais nove. Ao contrário dos irmãos, ela nunca se casou. "Sou solteira convicta", brinca, para depois corrigir: "Eu casei com a USP."
Prestes a completar 94 anos, ela tem dois desejos. O primeiro: quer que a USP cresça no mesmo ritmo de hoje, mas com mais segurança na Cidade Universitária. "Tenho medo de andar sozinha aqui", relata, lembrando do caso do aluno Felipe Paiva, de 24 anos, assassinado há 11 dias dentro do câmpus.
A outra vontade é ser cremada e ter suas cinzas espalhadas em volta do prédio do IB. "Especialmente ao redor de uma árvore atrás da administração, que tem uma placa com o meu nome", deseja. "Assim, vou continuar vivendo nela e aqui dentro da USP." 


domingo, 15 de maio de 2011

Belas, velhas e nuas

Essa semana li sobre um fotógrafo que durante 36 anos fotografou quatro irmãs para mostrar como o tempo age sobre nós. O resultado é impressionante, sobretudo a expressão facial e o olhar. No início, adolescentes, jovens e depois mulheres maduras, chegando à terceira idade. É inevitável. O tempo... poderosíssimo. As mulheres continuam belas mesmo com as marcas da idade, inevitáveis a todas as pessoas que envelhecem. Para conhecer: Fotógrafo passa 36 anos fotografando irmãs


Vendo as fotos das irmãs, lembrei de um filme que assisti há muitos anos: Garotas do Calendário (Calendar Girls, 2003) do diretor Nigel Cole, uma comédia que vale a pena comentar, principalmente quando estamos falando sobre envelhecimento.                                                                     Google: Helen Mirren, 65 anos.

Baseado em uma história real, o filme acontece em uma comunidade britânica do condado de Yorkshire. Uma jovem senhora de nome Chris e interpretada por Helen Mirren, é integrante do Instituto Feminino, que reúne mulheres para atividades como jardinagem, tricô e feitura de doces e geleias. Quando o marido de uma das mulheres morre de leucemia, Chris tem uma ideia para ajudar o hospital local. Inspirada em um calendário que a personagem tinha visto em uma oficina da cidade e também motivada pelo discurso deixado pelo recém-falecido marido da amiga, que comparava as mulheres de Yorkshire às flores típicas da cidade que tem seu momento .mais belo no pleno amadurecimento. A ideia de Chris é fazer um calendário com as integrantes do Instituto, mostrando suas prendas ou dotes domésticos. O único detalhe é que todas deveriam posar nuas.
As dificuldades são muitas, desde convencer as mulheres a participarem das fotos, passando pela contratação de um bom fotógrafo e, claro, fazer com que a diretoria do instituto apoie a ideia e conseguir um patrocinador.                                                                                  
Baseado em uma história verídica, o resultado é uma das mas belas coleções de fotos femininas, que mostra como aquelas mulheres continuam lindas mesmo após os cinquenta anos de idade. 
Trailer do filme: Calendar Girls